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Bru Fioreti

Diga-me com quem te conectas... E te direi como te sentes na quarentena

Bru Fioreti

28/04/2020 04h00

Hiperconexão vira hiperconvivência com pessoas com as quais você nem percebe que deixou entrar na sua vida. E isso influencia seu humor, sua produtividade… (Foto: Pexels)

Começo a coluna com dois clichês, porém dois clichês muito bem-vindos para trabalhar a autopercepção nesses tempos atípicos.

O primeiro é a clássica frase "diga-me com quem tu andas, e eu te direi quem és". A segunda é uma versão disso, dita pelo já falecido guru americano Jim Rohn: "você é a média das cinco pessoas com quem mais convive".

Começo assim porque a convivência nunca esteve tão escassa e ao mesmo tempo tão intensa.

Em casa, se você mora com alguém, está convivendo e sendo influenciada com muito mais intensidade do que antes pelos seus, goste ou não.

Mesmo que não seja uma influência perceptível logo de cara, do tipo "estou ficando parecida com meu marido" ou "gente, estou falando igualzinho a minha irmã", a relação pode se manifestar em diferentes emoções, que, por sua vez, levam a novos e nem sempre desejados comportamentos no trabalho.

A irritação da hora do café da manhã que te faz ficar impaciente na call do trabalho; a mágoa que te faz desanimar de começar um projeto paralelo agora; e assim por diante.

Superconvivência virtual entrou no grupo

A influência do âmbito familiar no trabalho, e vice-versa, é apenas uma das nuances relacionadas ao convívio.

Várias pesquisas têm mostrado a hiperconexão em tempos de quarentena; e a superconvivência, agora virtual, vem na esteira desses números. 

Um exemplo: levantamento da Comscore feito em março mostrou aumento no uso de redes sociais de mais de 26%, com 19% a mais de tempo médio de permanência nas redes. No quesito site de notícias, houve quase 30% de aumento na procura e mais de 40% no total de visitas — graças principalmente à busca de informações sobre a Covid-19. 

Direta ou indiretamente, esses números mostram mais que acesso: mostram conexão, "convivência".

Você "convive" com as pessoas com as quais faz ligações de trabalho, "convive" com quem segue na rede social e até com as personagens frequentes do noticiário.

Se está convivendo demais com esses agentes, além do seu núcleo familiar e dos amigos com quem troca mensagens, está lidando com novas pessoas e fatos e permitindo que entrem na sua casa, na mente, na sua vida — e, pelo que os números mostram, numa proporção bem maior.

Não vim dizer que é bom ou ruim. Só que tem um impacto.

O post que você leu afeta seu humor. A notícia que acompanha sem parar atrapalha sua concentração. As chamadas que aceita fazer mesmo sem querer aumentam seu nível de estresse e te deixam exausta para aquelas que de fato queria.

Nossa atenção e nosso tempo são recursos limitados e estão à mercê das influências que deixamos entrar na nossa vida.

Sem dosar a hiperconexão, ela pode se tornar hiperconvivência e consequentemente um mar de influências fora de controle. É difícil se blindar 100%, mas é possível trazer consciência, fazendo as perguntas certas.

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Autoentrevista para ajustar a autopercecção

Se somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos, e se hoje isso se estende ao que consumimos no âmbito virtual, quem estamos nos tornando?

E mais: isso que estamos nos tornando é o que queremos, nos faz bem? Está contribuindo para nossos sonhos? Nos deixando produzir à altura do que precisamos ou queremos?

Antes de avançar, quero te convidar a fazer uma autoanálise de convivência. Respondendo:

  • Quais são as pessoas com quem mais tem convivido, presencialmente ou não?
  • Como se sente depois de conviver muito (falar, trocar mensagem etc) com cada uma elas?
  • Acha que são uma influência positiva para você e você para elas?
  • O que cada uma delas mais inspira em você?
  • Como tem gastado a maior parte do tempo online? Tente anotar o que mais acessa.
  • Quem são as pessoas quem quem se conecta todo dia via rede social? (mesmo se só assistir, sem interagir)
  • Como se sente depois dessa "convivência"?
  • O que cada uma dessas pessoas que virtualmente estão na sua vida, via rede social ou noticiário, te inspira?
  • Acha que precisa fazer uma limpa nas redes ou diminuir o tempo que dedica a notícias? Se sim, tome essa decisão e faça.

Com essa análise em mãos, espie a seguir a descrição de dois perfis que pode te ajudar na autoavaliação.

Relacionamentos mais sérios do que deveriam

Perfil 1: Casada de papel passado com as lives e os posts do Instagram. Ficar hiperconectada a redes sociais, é sabido, não faz muito pela saúde mental das pessoas. Volto a indicar ter horário fixo para navegar na rede favorita e usar o dispositivo de dosar a quantidade de horas conectada, disponível em vários celulares hoje em dia.

É natural se conectar mais nesse período. É OK aproveitar o conteúdo que está sendo oferecido, querer se entreter e, por que não?, sucumbir ao escapismo.

Mas, sob a ótica de que a "convivência" virtual com pessoas e assuntos influencia para o bem e para o mal, será que não vale olhar com calma o conteúdo que consome? E se perguntar o que ele provoca em você? O que te acrescenta? Qual a sensação que causa? No que ele te ajuda a se tornar?

Sugestão: antes de tudo, tente se afastar do celular enquanto trabalha. Faça uma limpa nas redes, fazendo com que pelo menos 80% dos perfis sejam os que passaram pelo seu novo crivo, baseado na ideia da influência direta do conteúdo sobre sua vida. Silencie quem não te fizer bem nem te acrescentar, se não quiser deixar de seguir. Reduza o tempo nas redes sociais a no máximo 1h30, 2h por dia — só de ter uma meta de tempo, já se sentirá mais no controle.

Perfil 2: Em um relacionário (ins)estável com notícias políticas e de pandemia. Claro que a gente precisa estar bem informada sobre o cenário político, econômico e principalmente os updates da pandemia. Mas estar por dentro não é estar atenta a cada novo tuíte sobre o tema! Eu sei que a conjuntura nos provoca esse senso de urgência, mas se você se informar por veículos sérios, de notícia, e não por prints de WhatsApp, poderá esperar para se inteirar em apenas um momento do dia que as principais notícias estarão lá, compactadas e apuradas para você.

Sugestão: informe-se por meio de veículos sérios, escolha os que mais gosta e faça uma espécie de "ronda" em um horário fixo do dia; pode ser a pausa do almoço ou assim que acordar. Por mais que eu seja jornalista e ache importantíssimo estar informada, tenho que admitir que notícia em excesso faz mal.  Psicólogos e estudos de várias linhas já apontaram nessa direção. Sob a lógica de "no que essa convivência me torna?", excesso de notícia ruim pode te tornar uma pessoa desgostosa e reclamona.

Manter a esperança e a cabeça fria envolve diminuir a quantidade de noticiário a que se submete, não se apegar só às manchetes negativas, procurar análises variadas sobre os fatos, especialmente as que mostrem diferentes perspectivas e não te deixem presa ao ciclo de notícias factuais negativas.

Ninguém tem que se desconectar nem se culpar por estar conectado demais, mas podemos tentar dosar isso para melhorar a concentração, produzir melhor e ter mais serenidade nesse período. Filtremos bem as influências, inclusive as virtuais, que colocamos na nossas vidas.

Controlemos o que podemos, afinal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Bruna Fioreti é coach de vida e carreira, jornalista e consultora de branding pessoal e conteúdo. Ministra cursos e palestras sobre carreira, estilo, produtividade e temas femininos pelo Brasil - expertise desenvolvida em cinco anos como redatora-chefe da revista Glamour. Com MBA em Coaching em curso e seu projeto Manual de Você, realiza dezenas de atendimentos individuais e dissemina o conceito de #autocoaching nas redes sociais.

Sobre o blog

Dicas e reportagens sobre carreira, com foco nas mulheres que buscam satisfação, foco, produtividade e aprimoramento da imagem profissional. Um espaço para falar das tendências da área, que vai te ajudar a atingir a melhor performance da empresa chamada VOCÊ.

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